segunda-feira, 12 de julho de 2010

PARA REFLETIR.

Cidadania participativa e utopias embaçadas

Penso que vivemos entre dois extremos, quando se trata de cidadania participativa, especialmente nestes nossos territórios de identidade onde muitas pessoas ainda cultivam uma compreensão bastante simplista em relação a quase tudo. E que extremos são estes que a meu ver explicam muitas de nossas dificuldades?


O que acontece é que temos de um lado uma maioria alienada, sem condições de perceber os fatos sociais como são, e de outro, uma minoria engajada, mas ao mesmo tempo descuidada das questões que dizem respeito ao amadurecimento pessoal, ao equilíbrio das relações humanas. Como resultado, alguns sequer têm objetivos claros e outros têm até muitos projetos, mas vivem feito cães e gatos, ou se embaraçam em sua própria falta de reflexão sobre si mesmos. Será que podemos alcançar o tão sonhado desenvolvimento local sustentável desta forma? Eis a questão.


Seria muita ingenuidade acreditar que o fazer social possa se dar sem conflito algum, e sabe-se que a pluralidade de ideias e opiniões enriquece a experiência dos grupos e das pessoas consideradas individualmente, mas tudo deve ter um limite. Quando as ambições de uns rivalizam com os interesses de outros, sejam estes interesses legítimos ou não, a ponto de prejudicar o andamento dos melhores projetos, está na hora de repensar a prática.


É comum aos militantes dos melhores movimentos sociais imaginar que apenas os outros, aqueles que estão de fora da luta, que militam pela manutenção do status quo, é que devem repensar seus atos, mudar de vida. Ora, que eles devem fazer isso é mais do que óbvio e dificilmente aceitarão tamanho desafio, posto que significaria abrir mão de privilégios. Agora nós, que ousamos ter utopias coletivas, precisamos compreender que se cada um que se atreve a tê-las se deixar transformar numa pilha de nervos ou num instrumento de disputas internas, tais utopias vão se converter em charcos lodosos como aqueles das elites, bem escondidos atrás de belas fechadas.


Tenho procurado ser ao mesmo tempo crítico e crítico da crítica, seja nos movimentos sociais ou eclesiais, sem maiores pretensões, porque nada angustia tanto quanto perceber que nossas melhores utopias terminam embaçadas por incompreensões internas, disputas mesquinhas protagonizadas por muitos dos que não submetem seus pontos de vista a uma análise socrática, para ver se eles se sustentam ou não.


Eu particularmente considero mais nobre, para todos nós que sonhamos, o exemplo de Gandhi e entendo como deploráveis algumas posturas de militantes que, em nome de grandes ideais, agridem gregos e troianos com atos e palavras que revelam grande ignorância. Nada como a ignorância para colocar a perder as belas utopias. Cuidemos de nós mesmos e quem sabe poderemos alcançá-las mais cedo.


José Avelange * Membro da Fraternidade Ecumênica Sal & Luz, licenciado em Letras pela Universidade Estadual da Bahia, com qualificação em Psicologia Social pela Universidade Aberta do Brasil, e Teologia, pela Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana.